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Demasias contra Belo Monte – parte 1

21/11/2011

Marcelo Idiarte

Maitê + Serra

Maitê Proença e José Serra

Um grupo de atores resolveu vestir a camisa da Globo e acompanhar a emissora em uma campanha obstinada contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (Pará).

Intitulado “Movimento Gota d’Água”, o vídeo da campanha traz a participação de Juliana Paes, Murilo Benício, Isis Valverde, Ary Fontoura, Maitê Proença (foto) e outros.

Há várias coisas significativas nesta campanha. A principal delas é o uso do talento interpretativo para convencer multidões, valendo-se de conhecidos recursos de teatro. Apesar da teórica nobreza da causa, na prática isso não é muito diferente de uma “palestra motivacional” ou de um culto evangélico. A técnica pura e simples chama-se persuasão, que é a arte do convencimento por meio de gestos teatrais e fala contundente.

30 anos depois de Itaipu ainda existe celeuma envolvendo usinas hidrelétricas. E o pior de tudo: com argumentos que superdimensionam o impacto ambiental e subdimensionam a necessidade da obra. Até as Carinetas fasciculatas sabem que o Brasil precisa de energia. E que, avaliando corretamente, até energias alternativas podem ter um impacto além do esperado para conseguir gerar os mesmos 11.233 megawatts de potência previstos para Belo Monte.

Belo Monte

Representação virtual da Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Alguns ativistas e oportunistas são bons de drama, mas esquecem de fazer cálculos simples que poderiam esclarecer alguns pontos.

No município de Osório (RS), por exemplo, há 3 parques eólicos distintos situados na mesma área: o Parque Eólico Sangradouro, o Parque Eólico Osório e o Parque Eólico dos Índios. Juntos eles formam o Complexo Eólico de Osório, que atualmente é o maior gerador de energia eólica da América Latina.

Osório tem 75 aerogeradores, 25 em cada parque. A capacidade unitária de cada aerogerador é de 2 megawatts, o que habilita cada parque a produzir 50 megawatts de energia. O complexo inteiro pode fornecer 150 megawatts.

Ao contrário de outros projetos, os aerogeradores de Osório foram dispostos em linha, separados por parque. Desta forma há uma linha reta de 25 aerogeradores que forma o Parque Eólico Sangradouro; uma outra linha de 25 aerogeradores que forma o Parque Eólico Osório; e, uma última linha de 25 aerogeradores que forma o Parque Eólico dos Índios. Considerando a área somada dos três parques, o complexo inteiro foi projetado sobre 13 mil hectares.

Aerogeradores em linha

Parque eólico com aerogeradores em linha

É possível traçar um comparativo mais claro sobre potencial energético e estrutura requerida para suplantar uma usina do porte de Belo Monte valendo-se dos mesmos aerogeradores de 2 megawatts de Osório. Para atingir os 11.233 megawatts de Belo Monte, por exemplo, seria necessário um fantástico complexo eólico com 5.617 aerogeradores.

Considerando que Osório custou R$ 465 milhões para ter 75 aerogeradores (R$ 6,2 milhões por unidade, incluindo toda infraestrutura adjacente), estima-se que 5.617 aerogeradores exigiriam investimento em torno de R$ 35 bilhões – talvez mais, talvez menos, porque o local e as condições do terreno influenciam nesse cálculo. Esta cifra fica acima da usina de Belo Monte, cujo custo total atualizado é de R$ 29,5 bilhões (R$ 25,8 bilhões da obra em si + R$ 3,7 bilhões em ações socioambientais).

Mas o problema não é só esse. E a área necessária para abrigar 5.617 aerogeradores?

Para projetos de parques eólicos, a distância lateral recomendada para aerogeradores em linha deve variar de 3 a 5 vezes o diâmetro do rotor do aerogerador. Já a distância longitudinal (ou seja: na direção do vento predominante) pode variar de 5 a 9 vezes o diâmetro do rotor. No esquema abaixo vemos um layout simples do que seriam 3 parques em linha usando como parâmetro de separação lateral 4 vezes o diâmetro do rotor, e como parâmetro de separação longitudinal 7 vezes o diâmetro do rotor. Cada ponto branco representa um hipotético aerogerador.

Separação de aerogeradores

Esquema de separação de aerogeradores em linha

Este é um esquema básico, de 3 parques com apenas 5 aerogeradores em cada parque, totalizando 15 aerogeradores. Agora é preciso projetar isso para 5.617 aerogeradores…

No caso de Osório não há dados disponíveis sobre as separações efetivamente utilizadas na planta do complexo, mas isso não é relevante para o nosso cálculo. Vamos usar os parâmetros mínimos sugeridos em projetos deste tipo para estimar a área necessária visando acomodar 5.617 aerogeradores em linha, ou seja: separação lateral entre os aerogeradores usando a razão de 3 vezes o diâmetro do rotor e separação longitudinal usando a razão de 5 vezes o diâmetro do rotor. Isso possibilita a maior densidade possível para um projeto de parque eólico com aerogeradores do mesmo porte de Osório.

De acordo com a Ventos do Sul Energia S/A, o rotor de cada aerogerador do complexo de Osório tem 70 metros de diâmetro. Baseado nisso, e considerando a melhor hipótese para projetar um megacomplexo eólico capaz de fazer frente a Belo Monte, seriam necessários 210 metros de separação lateral (70×3) e 350 metros de separação longitudinal (70×5) entre cada aerogerador.

Para facilitar o raciocínio, imaginem um número redondo de 5.600 aerogeradores divididos em 56 parques eólicos com 100 aerogeradores em linha em cada parque. Isso significa dizer que entre o 1º e o 100º aerogerador de um único parque haveria uma distância lateral total de 20.790 metros (210×99). E entre o 1º e o 56º parque do complexo haveria uma distância longitudinal total de 19.250 metros (350×55).

A isso ainda é preciso considerar o perímetro mínimo delimitador do complexo, que é de 200 metros de distância para quaisquer habitações de uso civil no entorno (residências, empresas, serviços públicos, escolas etc). Ou seja: pelo menos mais 200 metros em cada um dos 4 lados do complexo.

O perímetro regulamentar isolando as construções civis se faz necessário para evitar eventuais acidentes. No vídeo abaixo é possível ver um aerogerador da Dinamarca que entrou em colapso devido ao vento excessivo.

 

O porte do aerogerador dinamarquês acima é semelhante aos de Osório, cujas torres têm 98 metros de altura e pás de 35 metros de comprimento (alcançando, portanto, cerca de 133 metros de altura no giro das pás). Se um aerogerador em movimento entra em colapso, fragmentos podem ser arremessados a uma distância considerável – daí o perímetro de segurança ao redor do complexo.

Além disso existe a questão do ruído. Em distâncias inferiores a 200 metros o som produzido pelos aerogeradores não chega a ser prejudicial ao ouvido humano, porém pode causar distúrbios psíquicos nas pessoas pela submissão contínua ao ruído.

Pá de aerogerador

Transporte de uma pá de aerogerador para montagem no parque

Portanto aos 20.790 metros de área lateral somar-se-iam 400 metros (200 metros na esquerda e 200 metros na direita = 21.190), e aos 19.250 metros de área longitudinal mais 400 metros (200 metros na frente e 200 metros no fundo da planta = 19.650). Assim teríamos pelo menos 416.383.500 metros quadrados (21.190 x 19.650), ou 416,38 quilômetros quadrados. Ou, ainda, 41.638,35 hectares – que é a medida mais comum usada nessas situações.

Resumindo: praticamente 42 mil hectares de terra limpa¹ para dar espaço a uma energia alternativa capaz de fazer frente ao potencial energético de Belo Monte. E isso considerando os parâmetros mais otimistas de utilização de área, ou seja, desconsiderando acidentes geográficos ou eventuais impedimentos no solo do terreno em questão, que tem que estar plenamente apto a sustentar as fundações de 30 metros de profundidade das torres aerogeradoras (torres estas que chegam a pesar mais de 900 toneladas cada).

Belo Monte é duramente criticada porque vai transformar uma área de 52 mil hectares em reservatório d’água (10 mil hectares a mais do que o quase-deserto necessário para abrigar um complexo eólico de mesmo potencial energético). A alegação é de que a barragem da usina vai afetar áreas indígenas e a população ribeirinha. Vou tratar deste assunto em um segundo post.

Matriz energética

Matriz energética do Brasil

É importante frisar que ninguém é necessariamente contra parques eólicos ou demais fontes alternativas de energia. Tudo isso é muito bem-vindo e quiça possa se multiplicar com o passar dos anos. Agora… o que não dá para engolir são os excessos na demonização de Belo Monte. Além disso, a ausência de um dimensionamento racional da estrutura necessária para colocar um complexo eólico no mesmo patamar de uma hidrelétrica do porte de Belo Monte faz germinar um certo romantismo quase bobo em muita gente, que acaba falando em “energia alternativa” como se a demanda fosse por apenas alguns megawatts. Isso definitivamente não é uma gota d’água.

Segundo os dados mais recentes do IBGE, o Brasil já tem 192 milhões de habitantes. Hoje, felizmente, quase todos possuem dezenas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos em casa. Energia para suplantar isso não é brincadeira. Fazer uns cataventos ou placas solares pode funcionar em uma casa ou em um sítio, mas sustentar ao menos uma região metropolitana com energia alternativa são outros quinhentos. Muitos e muitos quinhentos, diga-se.

Belo Monte, por exemplo, vai suprir 26 milhões de habitantes, o que equivale quase ao Complexo Expandido Metropolitano de São Paulo (região metropolitana + Baixada Santista + áreas metropolitanas de Campinas e São José dos Campos + aglomerado urbano de Jundiaí + microrregião de Sorocaba + áreas menores no entorno, que totalizam 29 milhões de pessoas ou 75% da população do Estado de São Paulo). Se já estivesse pronta, Belo Monte abasteceria sozinha 14% da população brasileira.

Complexo Expandido Metropolitano

Complexo Expandido Metropolitano de São Paulo

Há, sim, diversos interesses em jogo com Belo Monte. Porém alguns deles não são exatamente os que uma boa parte dos contrários ao projeto estão usando como argumento para tentar impedir a obra. Essa questão envolve todo um ciclo de coisas a partir dos benefícios evidentes que a usina traz ao Brasil, que aumenta cada vez mais a sua autossuficiência em recursos energéticos. É isso que preocupa efetivamente os competidores estrangeiros, especialmente os Estados Unidos e países da Europa, e não as questões ambientais e os índios da região. É sabido que obras como Belo Monte impactam – positivamente – até sobre os commodities dos alimentos. Mas isso é assunto para um terceiro post.

Para se antecipar e saber o que realmente está por trás das críticas a Belo Monte, convém ler este relatório da consultoria norteamericana David Gardiner & Associates² (que infelizmente não mereceu nenhuma consideração da nossa estranha imprensa, e tampouco de alguns opinadores sobre impacto de obras).

O resto são argumentos exagerados e dados superdimensionados que já foram utilizados contra Itaipu há 30 anos atrás, assim como recentemente foram usados contra as hidrelétricas da China e permanentemente são usados em qualquer lugar onde uma grande obra está em curso. Porém a época em que o Brasil se orgulhava de ser a Vanguarda do Atraso já não combina com os dias de hoje. É preciso tomar cuidado para não embarcar em certas “campanhas”, porque o problema de algumas pessoas não é a obra – e sim quem está tocando elas.

Dispensar a energia hidrelétrica sob pretexto de impacto ambiental significa desligar agora mesmo o computador, celulares/smartphones/tablets (porque para usar isso “via bateria” é necessário toda uma estrutura na rede externa de telefonia que se vale fundamentalmente de energia elétrica padrão), TVs, home teather, condicionadores de ar, freezers, motor da piscina, chuveiros elétricos, banheira de hidromassagem, ferro de passar roupa, aquecedores elétricos etc.

As energias alternativas são energias acessórias, não têm como substituir a demanda por energia em um país continental como o Brasil. Apesar do avanços, ainda vai levar muitas décadas (talvez uns 50 anos) para haver uma estrutura capaz de competir com as fontes hídricas do país, sobretudo porque a nossa população cresce progressivamente e o acesso a aparelhos dependentes de energia elétrica se multiplica em uma velocidade espantosa.

[¹] Preferencialmente deve haver no máximo vegetação rasteira na área de um complexo eólico. Árvores e arbustos determinam uma maior rugosidade no terreno, o que acaba interferindo diretamente no fluxo e no aproveitamento dos ventos, além de atrair aves.
[²] Conforme visto em http://www.twitlonger.com/show/e8gioi

54 Comentários
  1. marinildac Link Permanente

    Muito bom, muito esclarecedor. O exemplo de Osório é definitivo. Este texto aqui http://casatolerancia.blogspot.com/2011/11/belo-monte-noticia-ou-novela.html#more afirma que o custo de BM chegará a 30 bilhões — e ainda assim BM sairia mais barato. Parabéns, adorei!

    • O custo da obra em si foi atualizado de R$ 19 bi para R$ 25,8 bi. E ainda tem R$ 3,7 bi destinados às ações socioambientais, totalizando de fato R$ 29,5 bi. Eu corrigi a informação, obrigado.

  2. José Paulo Link Permanente

    Então Belo Monte vai mandar energia lá do norte do país para o sudeste? Até para mandar de Itaipu para são Paulo é difícil e as linhas são problemáticas, quanto mais trazer de Belo Monte para SP. Ou já inventaram um meio de conduzir energia elétrica sem usar fios?

    • Como assim mandar do Norte para o Sudeste? Eu usei o Complexo Expandido Metropolitano de São Paulo como exemplo de densidade populacional beneficiada. Em nenhum momento afirmei que a energia viria exclusivamente para essa região. Aliás não tem nem porque ser assim. Na verdade a energia gerada em usinas hidrelétricas (ou até mesmo em parques eólicos) não vai diretamente sequer para o entorno de onde é captada: isso é enviado para um sistema central de gerenciamento que distribui proporcionalmente a energia no país baseado em inúmeros parâmetros.

  3. Mais um esclarecimento que eu estava procurando. Esta informação da área necessária para a produção de energia foi muito boa e eu ainda não tinha encontrado em outro lugar.

  4. Carlos Renato F. Rodrigues Link Permanente

    Muito boas tuas colocações. A frase “superdimensionam o impacto ambiental e subdimensionam a necessidade da obra” resume tudo. Se o complexo de Osório, que eu já visitei e posso assegurar que é enorme, produz apenas 150 MW… dá pra imaginar a estrutura necessária pra conseguir 11.233 MW na base do vento. Esse pessoal da Gota d’Água é muito bom de novela, mas tomara que nunca ocupe nenhum cargo de planejamento público.

  5. Giovana Cazzarini Link Permanente

    Além de tudo que você disse sobre técnicas de persuasão, juro que não entendi a história da Maitê simular tirar o sutiã no vídeo de uma campanha que é para ser séria. A gente fala tanto do machismo, mas às vezes as próprias mulheres não se dão o respeito. Triste.
    Eu pessoalmente acredito muito no potencial da energia eólica, mas é como você falou: isso ainda vai levar décadas para chegar em um nível capaz de competir com as hidrelétricas.
    Por acaso você sabe qual a velocidade que o vento de uma região precisa ter para viabilizar um parque eólico? Procurei essa informação e não achei em lugar algum.

    • A velocidade média dos ventos deve oscilar entre 6,5 e 7,5 metros por segundo. Mas esta medição é complexa e não deve se basear apenas nos laudos da estação meteorológica mais próxima. O levantamento deve ser pontual (na área exata pretendida) e realizado em alturas diferentes (geralmente a 30 e a 50 metros de altura) por pelo menos 6 meses, com equipamentos que coletam dados de 10 em 10 minutos.

  6. Cara, parabéns pelas informações e principalmente pelo modo que você expôs elas.

  7. Marcos Veiga Link Permanente

    Oi Marcelo, foi você que escreveu o texto? Não vi a assinatura, só isso. Gostei do texto, gosto também da discussão que o vídeo dos globais está causando.
    Tenho algumas perguntas.
    No seu texto você compara Belo Monte com um parque eólico gigantesco. Entendo que seria absurdo um parque eólico dessas proporções. Mas a questão é: É necessário um parque dessa magnitude? O Brasil realmente precisa de tanta energia de uma vez só?
    Não seria melhor investir nesse tipo de energia aos poucos, construindo parques menores e mais distribuídos de acordo com o crescimento da demanda? Não sou a favor do atraso, sou a favor de um crescimento um pouco menos acelerado, e penso que se existe uma forma alternativa, com menos impacto ambiental e nem tão mais cara assim (comparando os R$ 35 bi com os R$ 30 bi de BM) porque não seguir por esse caminho?
    Obrigado.

    • O texto é meu, Marcos. Essa questão do gerenciamento da energia elétrica é bem complexa. Em tese o Brasil (depois daqueles dois famosos blecautes durante o Governo FHC, em 2001 e 2002) tomou medidas técnicas e administrativas para contingenciar melhor o sistema de distribuição de energia, evitando gargalos e desperdícios. Porém nós ainda podemos ficar muito perto de um limite crítico caso uma série de eventualidades aconteça. A importância da energia para o país (qualquer país) é imensurável e não se relaciona apenas àqueles prejuízos pontuais que se vê nos jornais do dia seguinte a um apagão. Como são muitas variáveis que se movem ao mesmo tempo, sempre existe a probabilidade (por menor que seja) de uma coincidência de fatores implicar em novo apagão. Por exemplo: muitas regiões submetidas ao mesmo tempo a calor extremo (o que aumenta muito a demanda por energia); período de seca anormal nas regiões de captação de água para movimentação das turbinas hidráulicas; danos nas linhas de transmissão de alta voltagem causados por intempéries; problemas de gerenciamento operacional ou de software/hardware no SIN (Sistema Interligado Nacional), responsável pela administração dos recursos energéticos do Brasil; etc. Geralmente um problema isolado não costuma representar impacto ao sistema como um todo, já que tudo é dimensionado justamente para lidar com isso, mas a conjugação de dois ou mais problemas de grande monta ao mesmo tempo pode acarretar resultados não desejáveis. Como se minimiza os riscos disso? Gerindo corretamente os recursos e ampliando cada vez mais a matriz energética. Veja: se não atrasar o cronograma, Belo Monte está prevista para entrar em operação no início de 2015. Pelas projeções do IBGE, em 2015 já seremos 200 milhões de brasileiros, 8 milhões a mais do que hoje. Sem falar que o acesso a equipamentos movidos a energia elétrica terá se multiplicado numa razão muito maior do que o crescimento populacional. Ou seja: em 2015 nós já teremos um cenário muito diferente de hoje – e isso implica, sim, que as ações de planejamento sejam céleres e contundentes para garantir o abastecimento da população. Se nós ficarmos apenas construindo complexos eólicos do porte de Osório, muito em breve poderemos ter uma surpresa (bem) desagradável.

  8. desculpe se estou fazendo uma pergunta já respondida no corpo do texto ou nos comentários, mas minhas mãos coçam para fazê-la:
    um dos argumentos desqualificando a geração eólica comparada à hidráulica é a área necessária para gerar quantidades equivalentes de energia. porém, considerando que estamos no Brasil, não dispomos de terra suficiente? além disso, também considerando o mínimo impacto em solo da geração eólica, não é uma vantagem se comparado ao impacto ambiental da implantação de uma hidrelétrica? e o argumento da perenidade dos ventos não leva em consideração também a variação de volume das águas represadas?
    no mais, parabenizo pelo texto.

    • Terra o Brasil tem de sobra. Áreas passíveis de receber grandes complexos eólicos, nem tanto. Ainda mais com potencial energético equivalente a Belo Monte. Nem todas as áreas disponíveis para captação eólica têm média de ventos superior a 6,5 metros por segundo. E nem todo lugar que tem este potencial eólico tem condições de abrigar um complexo de porte por diversos motivos. Certamente há vários lugares no Brasil suscetíveis à instalação de um complexo similar ao de Osório, mas para produzir a mesma energia de Belo Monte nós precisaríamos de 75 complexos semelhantes a Osório. Acho que o pessoal tem um pouco de dificuldade para dimensionar isso. O impacto ambiental de um complexo eólico é menor do que uma usina hidrelétrica (embora também exista, é bom deixar claro), mas esta é sobretudo uma relação de necessidade: ninguém quer construir usinas hidrelétricas no meio da floresta simplesmente porque quer fazer o mais danoso ao meio ambiente, e sim porque esta é a opção que supre a demanda por energia que o país terá nos próximos anos. A questão da perenidade dos ventos você deve ter lido em outro lugar, mas de qualquer forma tanto as usinas hidrelétricas quanto os parques eólicos não têm condições de operar com capacidade máxima 365 dias por ano. Evidente que, como em quase tudo, existe sazonalidade na razão de captação da fonte que será transformada em energia. Isso vale para a água e para os ventos.

  9. Luciano Bastiani Link Permanente

    Caro Marcelo Idiarte,

    Que pena que na nossa ‘nobre’ imprensa os temas não sejam apresentados (sim, apresentados, porque imprensa tem de mostrar as informações, e não somente opinar o tempo todo sobre elas) da forma didática e bem embasada que vc fez
    aqui.
    Tenho lido alguns blogs a esse respeito e na maioria dos casos o ‘debate’ se limita a ‘ser contra porque é do PSDB e a favor porque é do PT’, etc.
    Pouquíssimos se exprimem lembrando do chuveiro, do computador, do ar condicionado, do microondas nossos de cada dia. Parece que o problema é só dos outros…
    Muito bom o seu texto e o nível de suas respostas ás dúvidas que lhe são colocadas. um abraço
    Luciano Bastiani – Brusque SC

  10. Muito bom o seu artigo!
    Contra fatos não existem argumentos!!! Temos que ter um respeito profundo pelos fatos que a realidade nos fornece!!!!
    Parabéns!!!!

  11. Júlia Paula Link Permanente

    Parabéns pela seriedade e profundidade do texto!

  12. Vitor Hugo Baracy Link Permanente

    Enfim uma argumentação objetiva e ponderada que contribui ao debate. O vídeo dos artistas da Globo apela à emoção, não à razão. Esse movimento ‘gota d’água’ está cheio de imprecisões e inverdades sobre a localização e o impacto às populações indígena e ribeirinha. Espero que você enfoque isso também, Marcelo. Parabéns pelo texto!

  13. Muito bom! Este vídeo também contradiz na ponta do lápis os globais:

  14. ULISSES BARBOSA Link Permanente

    Parabéns.

  15. Oi Marcelo, gostei do seu texto. Aos poucos eu vou, como pessoa comum, formando minha opinião sobre aproveitando estes esforços. Acredito que se este governo conseguiu pegar um projeto antigo e remodelá-lo com participação popular, vendo alternativas, contemporizando diversos atores políticos, é um sucesso. No entanto, tive acesso a esse texto da revista Época, é bem verdade, mas com o Professor Célio Bermann. Entendo que ele questiona afinal a nossa relação de consumo, mas também analisa ser ilógico a construção da usina e que as demais saídas energéticas para fazer Belo Monte ser realmente eficiente seria a construção de outras tantas acima…
    Você analisa isso também?
    http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/10/belo-monte-nosso-dinheiro-e-o-bigode-do-sarney.html

    • Eu respeito o trabalho do professor Célio Bermann, mas creio que até cientistas e intelectuais às vezes têm problema para lidar com a vaidade. Por não ter sido ouvido da forma como gostaria, agora o professor está com a língua afiada. Criticar o consumo é chover no molhado. É fácil fazer isso sentado defronte um notebook, em uma sala bem refrigerada e iluminada artificialmente, bebendo cafezinho preparado em cafeteira elétrica, enquanto se conversa com outras pessoas ao smartphone – que apesar de funcionar com bateria requer toda uma infraestrutura elétrica na rede de telefonia para sustentar as transmissões. Dizer que nós vamos pagar a obra é outra obviedade. Qual obra pública não é paga com o dinheiro dos contribuintes? Ou será que tem algum administrador público que realiza obras com o dinheiro do próprio bolso? Apesar de ser uma soma vultosa para nós mortais, R$ 30 bilhões é uma cifra pequena para o orçamento da União, que é da ordem de três ou quatro trilhões de reais. O professor critica até o fato de que Belo Monte não vai ser a única hidrelétrica a ser construída no Brasil nos próximos anos… Mas por que deveria ser a única? Com a demanda que temos por energia e com a enormidade de recursos hídricos singulares que temos no país, por que não aproveitaríamos isso? Um dia, daqui muitos anos, quando tivermos condições de dispensar a energia gerada por elas, as hidrelétricas talvez não sejam mais necessárias. Mas hoje elas ainda são impreteríveis.

  16. Este é outro artigo sobre nossa matriz energética e a discussão sobre Belo Monte e fontes alternativas de energia, bem esclarecedor.

  17. Aparecida Link Permanente

    Excelente texto com informações necessárias.É dessa forma que a nossa mídia deveria agir, com imparcialidade, publicando textos como esse pró Belo Monte e outros contra,mas com argumentos que ajudassem o povo a formar uma opinião. Porém, na atualidade isso é querer demais.
    Parabéns!

  18. Henri Breton Link Permanente

    Caras……eu adoro ler o que o Marcelo Idiarte escreve……muito mesmo…….mas acho ele muito sectário….o que é do PSDB é ruim….e o que é do PT é vanguardista……e outra provocação que te faço Marcelo……tu só tem comentários elogiativos a ti………..apagaste as críticas?? Quero resposta disso!!!! saludos rapá!!!!!

    • Breton, somente dois comentários não foram publicados neste post, ambos do mesmo fake. Motivo básico para a não-publicação: usou endereço de e-mail falso e argumento infantil, seguido de ironia desnecessária na segunda tentativa. Todas as críticas contrárias feitas de modo inteligente e baseadas em dados, não em achismos, serão publicadas. Você me conhece pessoalmente e sabe que eu respondo qualquer coisa colocada de maneira respeitosa e fundamentada.

  19. Acredito que existe existe uma reflexão sobre os rumos de nossa sociedade que deve ser considerado na discussão! http://falanatureza.blogspot.com/

    • Não creio que a questão neste momento é antropológica/sociológica. Este debate deveria ter sido feito antes, até porque o projeto de Belo Monte remonta aos anos 70. Agora nós estamos no limiar do tempo necessário à conclusão da obra e da demanda por energia.
      PS: este comentário entrou automaticamente na fila de spam por ser originário do mesmo local de mensagens anteriores.

  20. Henri Breton Link Permanente

    ok garoto………

  21. Lorêdo Vianini Neto Link Permanente

    Parabéns Marcelo, sou Engenheiro Civil e atuo nesta área e percebi como é fácil para quem não entende o problema tecnicamente criticar uma usina hidrelétrica.
    Gostaria de fazer uma sugestão para deixar ainda mais claro para as pessoas que simplesmente pelo fato de ouvirem que 52 mil hectares ou 520 km² serão alagados e por isso ficam estasiadas que essa área é muito pequena se comparada com tantas outras atividades que estão acontecendo na amazônia e que ninguém fala nada.Por exemplo (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=44047 26 jan. 2007 – O desmatamento já atinge 13,3% da área da Amazônia Legal ou 665.944,80 quilômetros quadrados, segundo cálculos do IBGE). Além disso, o que são 520 km² se comparado com o benefício que uma obra desta magnitude vai trazer tanto para a região como para o Brasil todo. A amazônia legal tem uma área de aproximadamente 5.217.423 km², ou seja, esta obra vai utilizar apenas 0,01% da floresta amazônica.
    Fica a dica, falar em 520 km² assusta menos do que falar em 52 mil hectares.

  22. “Há várias coisas significativas nesta campanha. A principal delas é o uso do talento interpretativo para convencer multidões, valendo-se de conhecidos recursos de teatro”…. significativa essa frase!!! Não é isso mesmo que fazem os políticos/empresários/corporações para CONVENCER as pessoas que uma COISA é boa??????.
    Ora, amig@s, o que vem bem antes de construir ou não Belo Monte são as questões mais profundas, uma delas é se é necessário essa obra monstro… no meu entender NÃO!!!!
    Ainda mais com outra realidade energética que nunca vem ao debate ou colocada em prática: ENERGIA SOLAR. Temos hoje em dia tantas outras formas de reverter a destruição da natureza (longe de quaisquer panfletagens “ambientalistas nesse momento) e sim partir para uma mudança radical em nossos HABITOS CULTURAIS- esses sim, que passam por posturas éticas diante da vida e de formas de alimentação humana, estão levando a Humanida a ruina total.

  23. Maria Stopa Link Permanente

    Por favor, desconsidere o anterior, usei o termo pro-life erroneamente. Aqui está a revisão:

    Interessante, mas você não acha que 500 anos se passaram após a colonização do Brazil e que em pleno século 21, com toda a tecnologia e ciência atual, não é hora de solucionar o problema do homem branco sem destruir o índio nativo e já desalojado de suas terras (Brasil), ou aprisionado em determinada area?
    Você é contra cultura, tradição? Vamos assassinar as línguas indígenas? Temos que destruír o índio fraco em prol da nossa sobrevivência e progresso?
    Você poderia apresentar um post dissecando a energia solar também?
    Realmente o Brasil deve estar capacitado para crescer e competir internacionalmente, mas a custo dos índios? O PT se preocupa tanto com a classe operária e sofredora, estã claro que índio, concepção ingênua e ignorante, não faz parte da causa deles.
    O Brasil, com tanta universidade e faculdades, deveria prover soluções de crescimento sustentável e com o objetivo de que gerações futuras se orgulhem do seu passado, não que se envergonhem.
    Adoção de política de uso de tecnologia com menor consumo de energia.
    Nos EUA, civis têem ar condicionado/aquecedor básico e não tenho visto apagão, não seria um modelo a seguir?
    Abu Dabi tem o projeto Green City no meio do deserto para desenvolver soluções ambientais. Cidade modelo. Por que não ampliar os horizontes, usar tecnologia de ponta? Porque é mais fácil destruir o mais fraco, o índio?
    A CULTURA DO BRASIL PERDE.
    A HISTÓRIA DO BRASIL ESTÁ SENDO MACULADA UMA VEZ MAIS.
    Não sou idealista ou romantica, não tenho e nem nunca terei filhos, acho que o mundo já tem gente demais, mas penso que se a humanidade deve sobreviver, o índio brasileiro também.

  24. Laura Frendich do Prado Link Permanente

    Digam o que quiserem mas o movimento Gota D’água foi um tiro no pé. Conseguiu a proeza de trazer à tona vozes que até então não tinham se manifestado sobre Belo Monte. Antes do polêmico vídeo dos artistas da Globo parecia haver um consenso de que a usina era desnecessária e prejudicial,agora já se vê que o cenário não é tão tenebroso quanto pintavam alguns ambientalistas.

  25. Gustavo Belinky Link Permanente

    Eu sou a favor da energia eólica. Inclusive acho que tem que colocar os tais aerogeradores no Leblon, na Barra, em Copacabana, Ipanema… Daí quero ver os atores da Globo apoiando!

  26. Aparecida Link Permanente

    Concordo Laura! Até mesmo porque infelizmente ou felizmente a televisão e a internet tem o poder de informação que nenhum outro meio de comunicação tem. A questão em discussão é o impacto ambiental e cultural que irá causar. Não sou contra a construção de Belo Monte, sou contra a forma que está sendo abordado este assunto. Quem tem o poder de agir em prol do meio ambiente é o governo, e até agora não vi ele (governo) fazer nada que pudesse merecer aplausos.

  27. Sou contra a construção da usina e também contra a campanha “Gota D’água”, mas, apesar de estar curioso para ler o próximo post no qual o sr disse que trataria da questão indígena (respeitando a cultura alheia), a grande pergunta seria: O benefício dessa construção compensaria para a maioria pobre e de classe média no Brasil? Quem realmente sairá ganhando?
    É pensando nisso e no histórico do país que eu coloco meu ponto contra a construção. É difícil medir, mas os danos aproveitados por má gestão, corrupção e degradação inconsciente são a triste realidade.

    • Achei curioso você colocar pobres e classe média no mesmo patamar de necessidades, todavia a energia gerada por Belo Monte alcançaria ambos, sim. Veja bem, existe uma ideia distorcida de que a energia gerada em usinas hidrelétricas (e parques eólicos, e usinas nucleares, e termoelétricas etc) é distribuída tão somente (ou com preferência) no local onde é captada. Ou, pior, que essa energia é “canalizada” para determinado setor ou para determinado porte de cliente. Existe uma quota que até é vendida no mercado aberto para clientes de peso dispostos a comprar energia (indústrias, majoritariamente). Tomando o caso específico de Belo Monte, o “rateio” dos megawatts está definido assim: 70% para as distribuidoras (concessionárias de energia – que precisam prover a minha, a sua e a casa de todos os brasileiros já servidos por energia elétrica); 20% para o mercado livre (essa é a quota destinada a quem pode pagar); e, 10% para os autoprodutores (empresas que integram o consórcio Norte Energia, responsável pela obra de Belo Monte). Ou seja: 70% da energia gerada em Belo Monte vai para pobres, classe média baixa, emergentes, classe média alta, ricos, brancos, negros, pardos, sulistas, nortistas etc. Como que vai? Bem, aí entra outro aspecto pouco conhecido por quem não é da área: o Sistema Interligado Nacional – é ele que gerencia a distribuição da energia de todas as unidades geradoras do Brasil (hidrelétricas, eólicas, termoelétricas, nucleares, biomassa, gás natural etc). Como o consumo nem sempre é um parâmetro fixo, estando atrelado a diversas variáveis (horário, temperatura, período, evento etc), o que acontece é que existe um sistema que monitora e ajusta a distribuição conforme onde está havendo – naquele período – uma demanda maior por energia. Exemplo: o SIN detecta que a combinação de alta temperatura coincidente com um horário padrão de pico de consumo em determinada região requer um “reforço” na distribuição de energia para lá, e então o sistema reduz a carga em outra região onde o consumo está subutilizado naquele momento. Resumindo: a soma mais significativa da energia elétrica produzida no Brasil é distribuída de forma dinâmica, e não fixa. Ou seja: sim, ela atende a maioria da população (dentre aquela já servida por energia).

  28. marinildac Link Permanente

    Muito bom mesmo o debate. Marcelo é incansável e elegante nas respostas, um colírio! Também acho interessante a vertente de ideias que defende uma espécie de volta ao bucólico, ao ruralismo… Acho que isso só será possível quando todos os recursos da Terra estiverem esgotados. Aí criaremos fugiremos para nossa Terranova (alguém está vendo o seriado da Fox? É instigante.), no passado ou em outro planeta. Fora isso, não há como fazer o homem recuar de seus processadores e sistemas. O indígena também quer ter luz em casa, mesmo que seja coberta de palha. Basta ver uma aldeia de tribo rica (e há muitas): cheias de parabólicas. É da natureza humana. Países grandes e pequenos, ricos e pobres, investem o que podem em energia. Alguns já nem têm mais áreas para instalação de hidrelétricas (os EUA entre eles: construiu todas possíveis). Assim caminha a humanidade. abs

  29. Marco Aurélio Fontes Link Permanente

    Até o momento esta é a argumentação mais objetiva e consistente que eu já li sobre a usina na web. Geralmente técnicos escrevem só para técnicos. E de filósofos e adivinhos o mundo está cheio. Posso republicar em comunidades?

  30. catoalberico Link Permanente

    grande texto.

  31. Vem cá, você também não está usando de persuasão no seu texto (e aparentemente com resultados imediatos, como pode-se ver nos comentários)? Este trecho em particular foi até plagiado diretamente do vídeo, com pequenas alterações, para apelar às emoções dos leitores:

    “Dispensar a energia hidrelétrica sob pretexto de impacto ambiental significa desligar agora mesmo o computador, celulares/smartphones/tablets (porque para usar isso “via bateria” é necessário toda uma estrutura na rede externa de telefonia que se vale fundamentalmente de energia elétrica padrão), TVs, home teather, condicionadores de ar, freezers, motor da piscina, chuveiros elétricos, banheira de hidromassagem, ferro de passar roupa, aquecedores elétricos etc.”

    Aprecio os dados novos que você trouxe para o debate mas, da mesma maneira que muitas pessoas que adoram novela de repente acham chic odiar o movimento só porque é composto de artistas, dizer que todo mundo que o apoia não pensa por si próprio também afasta quem estava, honestamente, procurando o debate.

    Sempre quis ter um debate inteligente e educado nesse país mas, como sempre, o povo continua tratando tudo como futebol e religião. Escreva um texto que não trata quem discorda de você como idiota e eu volto aqui para ler.

    E ah! Você cita Itaipu e Three Gorges Dam como exemplos de sucesso. Já pesquisou sobre o que eram as Sete Quedas, ou sobre o caos da agricultura no montante do Rio Yangtze?

    • Acho que você está fazendo várias confusões. A primeira delas é acusar de “plágio com pequenas alterações” a citação dos aparelhos eletroeletrônicos. Eu uso este exemplo há anos para demonstrar como alguns argumentos são demagógicos na área ambiental. Outra confusão que você está fazendo é sobre persuasão. Em um texto de opinião são expostas ideias e/ou dados técnicos, e o leitor é absolutamente livre para analisar, refletir, pesquisar, comparar e contestar, se for o caso. Nada disso pode ser comparado a alguém quase chorando em um vídeo com uso de recursos teatrais, atores famosos e uma produção enorme por trás (e ainda colocando o dedo na sua cara, como quem diz “se algo der errado, nós vamos te culpar”). Se não for pedir muito, aponte no texto onde eu tratei leitores contrários ao projeto como idiotas. E debater Itaipu não dá, né? Sem ela nós não estaríamos hoje na frente de computadores no Brasil.

      • OK, antes de mais nada, quero dizer que admiro sua disposição ao debate.

        1- Acusação de plágio: é claro que não foi minha intenção te acusar de plágio, mas somente uma ironia. Os “globais” utilizaram um argumento semelhante ao seu, e eu considerei isso interessante, já que você começou o texto reclamando do emprego de persuasão, da parte deles.

        2- Persuasão: você tem razão que um vídeo pode ser muito mais persuasivo que um texto, mas não para quem tem mínimas capacidades de interpretar um artigo de opinião bem escrito (como o seu obviamente é), A técnica de teatro descrita por você aqui não se encaixa, mas acredito que só o fato do texto estar bem escrito, ilustrado com fotos interessantes e publicado num blog – tudo isso já me leva a crer que você tem interesse sim, em “persuadir” seus leitores. E não há nada demais nisso. Você tem uma opinião, você quer ser ouvido. Por isso questionei no meu primeiro comentário: só um lado tem direito a persuadir? Usaram de técnicas teatrais para isso? Eles são atores! Você é blogueiro e usou blog!

        3- Tratar leitores como idiotas: Quanto a isso, retiro o que disse. Parei para pensar e lembrei que, nesse país, se você quer fazer uma diferença, você tem que ser didático. Você foi extremamente didático. Isso não quer dizer que você não tratou seus leitores como idiotas, mas isto é mais culpa deles (nossa) do que sua. Se você só apresentasse os fatos, sem nenhum recurso discursivo, provavelmente ninguém iria ler ou entender.

        4- Itaipu e Três Gargantas: Acho extremamente válido debater, sim! Afinal, são as duas usinas que continuarão a ser maiores que Belo Monte, caso venha a ser construída. Energia limpa e baixo impacto ambiental são expressões que vêm sempre juntas a energia hidrelétrica, mas esse não é bem o caso. Itaipu, um caso de sucesso? Talvez para muitos, mas esta é a diferença entre sustentabilidade “para inglês ver” e sustentabilidade de verdade. Já temos ótima tecnologia eólica e solar disponíveis. Os custos são maiores? Sim! Mas este é o mesmo argumento contra as iniciativas de energia alternativa proposta pelo Obama nos EUA. È claro que substituir a matriz energética de um país sai caro, mas isto é porque não se leva em conta os custos com saúde pública (e outros ainda mais obscuros, como a perda em biotecnologia ao se alagar todo um bioma) que se arrastam por décadas, séculos e até milênios. Dada a opção, eu escolheria parar de brincar com o sistema hídrico da Amazônia, porque ninguém sabe o que isto pode acarretar (embora alguém já tenha dito que uma mudança pequena no regime de chuvas da Amazônia pode causar a desertificação de áreas enormes no Sudeste, por exemplo)

        Só para esclarecer, não assisto TV e não tenho interesse em debater com você a pureza dos atores que participaram do vídeo (mesmo porque percebi que você já assistiu Além do Cidadão Kane). Tenho interesse, mas nem tanto, em debater sobre a Usina, nosso padrão de consumo, e a suposta inviabilidade da energia solar e eólica. Construir mais uma usina, mais uma avenida… sempre foi a solução preferida por nossos governantes, já que os resultados são percebidos pelos eleitores dentro do espaço de 4, 8 ou 12 anos. Mas isso é problema deles, e da sede de poder que eles têm. Nós, que não ganhamos nada com o sucesso eleitoral deles, deveríamos exigir a melhor e mais limpa fonte de energia que existe. Afinal, pode parecer que estamos economizando hoje, mas nossos filhos e netos vão pagar a conta – como aliás, nós pagamos a conta hoje (financeira e nos nossos pulmões, corações, etc.) por Itaipu, pela “paixão por carros” do brasileiro e a consequente inexistência de transporte ferroviário.

        Se tem como fazer melhor, por que nós não fazemos? Não é possível que todo mundo que é a favor trabalhe na Norte Energia, Odebrecht, Camargo Corrêa ou outras construtoras. A quem interessa essa suposta “economia”? E por que não discutimos esta previsão de aumento populacional e de consumo de energia? Não é nossa responsabilidade também parar de procriar tanto e usar menos energia também? Mas claro, se formos falar disso, muitos governantes e muitos cidadãos se sentiram incômodos, já que tocará em temas polêmicos como religião e co-responsabilidade. Eu opto por fazer o mais difícil.

        • Bem, creio que não é necessário comentar os teus enunciados de 1 a 3, então vou fazer uma rápida consideração sobre o 4º item. Na minha sincera opinião há coisas na atividade humana que são mais práticas, e que não comportam tanto a nossa inclinação natural para a suposição. A questão da necessidade de planejamento energético do Brasil, por exemplo, não é uma suposição: isso é verificado com cálculos (alguns simples, como os que relacionei no texto; e outros mais complexos, que envolvem fator de capacidade, projeções demográficas, expectativa de desenvolvimento, métrica de consumo etc). As questões inerentes ao impacto ambiental, embora se baseiem em determinados “cálculos” e sejam proferidas por alguns renomados professores, geralmente estão assentadas sobre o terreno da suposição. Cogita-se, estima-se, conjetura-se, deduz-se, imagina-se, e por aí vai, que poderá haver prejuízos em nível ambiental, mas nem o mais respeitado especialista tem condições de afirmar que determinado fenômeno de fato ocorrerá. Eu respeito pesquisadores de qualquer ordem, mas parte do pessoal que lida com pesquisa na área ambiental descobriu um campo fértil para atividade financiada. Creio que atualmente nem mesmo a Medicina recebe tanta subvenção para pesquisa, inclusive estrangeira. O professor Luiz Carlos Molion, por exemplo, já desmontou a tese do aquecimento global, mas a comunidade científica mundial reluta em admitir que há mais de 30 anos recebe rios de dinheiro para uma pesquisa sobre a qual eles já têm a resposta. Muitos dizem que a motivação maior de Belo Monte é o dinheiro e os interesses comerciais, mas isso pode ser aplicado até mesmo a certos ativismos – sobretudo na área ambiental. Pulando essa parte, a questão central é a autossuficiência em matriz energética. É isso que importa neste momento. E é isso que preocupa os demais players globais. O Brasil de fato está se tornando uma potência – autossustentável em vários aspectos. Tendo-se recursos energéticos, petróleo, tecnologia, comida e água, vai se depender de quem? Os competidores internacionais estão deveras assustados com isso, porque poucos países reunem todas essas condições ao mesmo tempo. Tem país nadando em petróleo, mas com escassez de água e alimentos. Outros têm alimentos em profusão, mas são totalmente dependentes do petróleo estrangeiro. A velha utopia do Brasil-potência, quem diria, está se transformando em realidade: estamos explorando nosso potencial hídrico; descobrimos – graças à tecnologia nacional da Petrobras – que existe uma mina de ouro enterrada a 8 mil metros de profundidade da superfície do nosso mar territorial (pré-sal); estamos produzindo soja e demais alimentos como nunca; a nossa indústria está a todo vapor; etc. Neste contexto, Belo Monte também se faz necessária para garantir toda essa enorme cadeia produtiva em ascensão. Em relação às fontes alternativas de energia (eólica ou solar), repito que no momento elas são apenas soluções acessórias e localizadas, sem a menor condição de substituir a energia gerada por usinas hidrelétricas e de suprir regiões amplas. Basta calcular-se custos e capacidades na ponta do lápis e o assunto não predispõe dúvida. Daqui 20 anos podemos rever tudo, conforme o estágio em que estivermos. Antes disso é pouco provável que as demais fontes de energia possam sequer cogitar substituir as usinas hidrelétricas. Acho que a energia eólica e a solar ainda tendem a crescer moderamente pelos próximos 20 anos, sendo que neste período a tecnologia (de aerogeradores, placas fotovoltaicas, baterias etc) deverá ser bastante aprimorada. Depois disso é provável que o crescimento seja mais acentuado, podendo, talvez, se tudo der certo, em 50 anos elas estarem em pé de igualdade com as usinas hidrelétricas, já representando uma fatia generosa da nossa matriz energética. Hoje a energia eólica responde por apenas 0,08% do abastecimento no país. Quer dizer: em termos práticos simplesmente não dá para comparar. Mas eu torço para que isso evolua.

          • Agradeço o interesse pelo debate, mais uma vez, e acredito que encontramos os pontos fundamentais da nossa discórdia. Você defende a construção de Belo Monte por, entre outros fatores, dar alto valor à autossuficiência energética do Brasil, o desenvolvimento do país nas próximas décadas e à urgência da solução da crise enérgetica. Eu já não me importo tanto com tudo isso. Primeiramente, não acho q o mundo vá ser nem melhor nem pior, caso o povo brasileiro tenha um papel destacado como uma das potências mundiais. A se basear no que se vê em nossas ruas e em nossa mídia, o mundo mais tem a perder do que a ganhar com um Brasil mais forte. Segundo, a energia que será boa para o desenvolvimento do país num momento pode não o ser para o mundo, no longo prazo. A construção de Belo Monte pode por exemplo levar espécies à extinção, comprometendo cadeias alimentares que, entre outros problemas, pode também gerar um caos na saúde pública. Ou pode terminar de destruir culturas nativas. Com certeza benefício tecnológico haverá pouco, já que já possuímos a tecnologia para a construção e operação de hidrelétricas há décadas. No fim, o mesmo grupo de engenheiros e empresários que lucraram com Itaipu (ou seus filhos), tende a lucrar com Belo Monte. Admito que a transofrmação da matriz energética de um país não é coisa fácil – mas porque devemos deixar essa difícil tarefa para os nossos descendentes, ao invés de nós mesmos controlarmos hoje o nosso destino? Esse empurra-empurra socio-ambiental pode parecer “maturidade” ou “bom senso econômico”, e minhas ideias ao contrário podem parecer utópicas; mas não sei quanto a você, só sei que eu quero olhar nos olhos das crianças daqui a 50 anos e falar que eu fiz o que pude, pra entregar para eles um mundo melhor.

            • Breno, felizmente a maior parte das pessoas que conheço quer deixar um mundo melhor às gerações vindouras. O que varia é o entendimento sobre como fazê-lo. A questão da energia, por exemplo, não remete exatamente à decisão deliberada de postergar para frente uma solução menos impactante ao meio ambiente. O que ocorre é que a implementação de uma solução menos impactante, dentre os modelos disponíveis, no momento é mais custosa e não atende por completo as nossas necessidades (falando em termos de Brasil). Mas isso não significa que parques eólicos vão ser proibidos. Há vários projetos em curso e inúmeros estudos de viabilidade sendo feitos em diversos Estados para determinar áreas adequadas à implantação desses complexos. Ou seja: a evolução desse sistema vai ocorrer de forma gradual, com o aprimoramento da tecnologia de aerogeradores e formação de amplo know-how no setor. Paralelo a isso a tendência é baixar o preço do megawatt/hora, tornando a energia eólica cada vez mais competitiva. Infelizmente nós não temos tempo para esperar todo esse processo evolutivo, que vai levar anos ainda, de modo que a alternativa das usinas hidrelétricas continuará sendo por um bom tempo a opção menos onerosa (por MWh) e mais segura do ponto de vista da autossuficiência. Eu não queria me estender muito, mas é importante frisar uma coisa a respeito de autossuficiência. Quando se fala nisso não se está dizendo que a finalidade é transformar o Brasil em um império, mas sim em uma nação não-dependente de terceiros. Quanto maior for a nossa autossuficiência, maior vai ser nossa condição de aumentar a produção agrícola e o desenvolvimento industrial, o que vai elevar o Produto Interno Bruto e produzir uma série de efeitos benéficos em cascata. A origem dessa interdependência está lá atrás, na base de tudo que se produz, sendo que o custo da energia elétrica e do combustível (necessário para o escoamento da produção), por exemplo, têm papel primordial nessa cadeia. Por isso que, acredite, é necessário se importar com autossuficiência. A começar pela autosssuficiência energética – porque todas as demais vão depender de alguma forma da energia.

  32. Lucas Ramirez Link Permanente

    É muito válido a leitura dessa reportagem!

    [link suprimido]

  33. Carlos Henrique Carvalho Link Permanente

    Muito bom o artigo. Compartilho uma nota que elaborei, que complementa, de certa forma, seu artigo. https://www.facebook.com/#!/note.php?note_id=2642470144825

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