Breviário nº 20101207
DADEUS NÃO LARGA O OSSO
Meses atrás a direção do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, decidiu pela transformação da capela do complexo hospitalar em um ambiente neutro, livre da preponderância de quaisquer religiões, mas sem exatamente proibir manifestações religiosas no local. Evidentemente isso incluía a retirada dos símbolos cristãos que sempre dominaram o espaço, assim como também dominam em praticamente todos os hospitais, escolas e órgãos públicos deste país – que supostamente tem uma Constituição Federal que pressupõe um Estado Laico (artigo 19, inciso I). As beatas da Igreja Católica, e a própria Igreja através de seus mandatários, imediatamente berraram contra a iniciativa. A Cúria Metropolitana determinou que o espaço não seja desocupado, oficializando uma espécie de usucapião da área que pertence ao hospital, bem de acordo com as práticas históricas da Igreja Católica, que sempre foi dada a tomar bens e impor coisas à força contando com a omissão e/ou covardia dos poderes públicos. A celeuma do Clínicas se arrasta até hoje, com o hospital tendo que recorrer de forma surreal ao Ministério Público do Rio Grande do Sul para conseguir dar a destinação que almeja a um espaço que é de sua propriedade. Quando surgiu a polêmica o conturbado arcebispo de Porto Alegre, Dadeus Grings, disse que haveria briga. Eu vou participar pessoalmente desta briga. A favor do Clínicas, naturalmente.
ESPECULAR É PRECISO?
Um daqueles repórteres biônicos da Folha de S. Paulo ouviu em algum lugar que o governo brasileiro eleito em outubro poderia encaminhar a compra de uma nova aeronave para uso da presidência da República. Imediatamente a Folha publicou que o avião seria um Airbus A330. Ironizada nalguns fóruns de aviação, face às características do modelo em comparação ao uso que supostamente se pretende dar à aeronave, dias depois a Folha retificou dizendo que seria um Airbus A340. Atualmente, de acordo com os jornalistas do PIG, a aeronave seria um Boeing 777. Ou seja: em duas semanas já mudou até de fabricante, da europeia Airbus para a norteamericana Boeing, porém o leitor médio não percebe essas sutilezas de quem não tem nenhuma informação concreta, apenas disse-que-disse organizado ao bel-prazer.
DA SÉRIE “RECORDAR É VIVER”
Por falar em disse-que-disse, aguarda-se com enorme expectativa a divulgação das tais gravações que teriam motivado uma das tantas capas/reportagens da revista Veja para tentar impedir a eleição de Dilma Rousseff. Diego Escosteguy, aquele rapaz da bolsa de estudos de US$ 45.000 do Instituto Millenium, jurou que tinha as gravações, mas até hoje não as apresentou. Obviamente os leitores que acreditaram no sujeito já esqueceram deste pequeno e singelo detalhe. Talvez no dia 30 de fevereiro de algum ano as supostas gravações venham a público.
MAIS UM TIRO PELA CULATRA
O principal assunto das últimas duas semanas tem sido o novo vazamento de dados diplomáticos através do site WikiLeaks. Aquilo que já se sabia informalmente agora tem documentação efetiva: as nações desenvolvidas, em especial os Estados Unidos, subjugam e interferem nos rumos das nações subdesenvolvidas. A surpresa – em termos – ficou por conta da trairagem do nosso ministro da Defesa, Nelson Jobim, que fornecia informações confidenciais aos EUA e fazia comentários pouco apropriados sobre a política externa brasileira. Mas a questão não é essa. Inicialmente o PIG tentou desmerecer o WikiLeaks e seu fundador, o australiano Julian Assange. William Bonner, por exemplo, chegou a chamar o WikiLeaks de “site de fofocas” ao vivo na bancada do Jornal Nacional. Mais uma vez, porém, o pessoal do PIG é obrigado a recuar e a mudar o enfoque da coisa face ao clamor popular. Independente das especulações acerca de seu fundador, o WikiLeaks prestou um inestimável serviço ao planeta, expondo as vísceras das relações internacionais e o modus operandi dos Estados Unidos. Hoje (7) até Mário Marcos de Souza, serviçal do Grupo RBS de Comunicação, escreveu um artigo a favor do WikiLeaks e de seu fundador no jornal Zero Hora. Enquanto isso Julian Assange foi preso na Inglaterra.
AVIÕES, AVIÕES…
Na Zero Hora de hoje também havia um périplo sobre aviões. Tempos atrás Luiz Zini Pires, editor-chefe de esportes, tinha anunciado “em primeira mão” que a equipe do Internacional de Porto Alegre viajaria para disputar o Mundial Interclubes em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, com um Airbus A340. Hoje o jornalista informa que “na última hora” a aeronave foi substituída por um Airbus A330, que, segundo ele, é “mais moderno” do que o A340. O A330 e o A340 foram desenvolvidos simultaneamente pela Airbus, sendo que as primeiras versões destas aeronaves começaram a voar comercialmente com uma diferença de poucos meses: o A340-200 em março de 1993 e o A330-300 em outubro de 1993. Esta diferença se deu apenas em função dos testes de certificação, pois em princípio as aeronaves possuem os mesmos sistemas e aviônicos. O problema é que Zini Pires não especifica quais versões do A340 e do A330 está comparando. Ele pode estar comparando a última do A330 (A330-200, que entrou em operação em abril de 1998) com a mais antiga do A340 (A340-200). De qualquer modo a quantidade de inconsistências numa nota tão pequena é incrível. O jornalista diz que a aeronave é da companhia aérea “portuguesa” PAL Airlines, só que a PAL Airlines é chilena e não possui nenhum Airbus na frota. Durante a Copa do Mundo de 2010 eles chegaram a arrendar um A340-300 da portuguesa Hi-Fly, mas a aeronave já foi devolvida – e era um A340. Talvez Zini Pires esteja se referindo à TAP, esta sim portuguesa. Um pequeno probleminha de siglas com grafia diferente e finalidade igual, tipo RBS/PIG. Por outro lado o jornalista refere que o voo terá tripulação de língua espanhola, o que pode remeter à PAL, afinal por que razão uma companhia aérea portuguesa atendendo passageiros brasileiros teria tripulação espanhola? Entenda se puder. O trecho final do texto, “Viajam 240 pessoas, com 20 poltronas disponíveis”, eu não vou nem comentar. Porque definitivamente não dá para entender o que o conspícuo jornalista quis dizer.
